Planejamento
Como estruturamos ResearchOps para dar autonomia a uma equipe de Design
ResearchOps · UX Research · Accessibility · Research Enablement · Governance
Quando a área de UX começou a ser estruturada na Hand Talk, pesquisas com usuários ainda não faziam parte do processo de Design.
Participei da criação de uma prática de ResearchOps que, ao longo do crescimento da equipe, permitiu que até sete designers conduzissem pesquisas com processos, artefatos e práticas comuns — mantendo autonomia sem depender de uma aprovação central.
- Meu papel: Product Designer Sênior / liderança técnica
- Equipe: até 7 designers realizando pesquisas
- Escopo: planejamento, recrutamento, acessibilidade, governança e gestão do conhecimento
O desafio
A pesquisa começou a ser incorporada ao produto ao mesmo tempo em que a própria área de UX estava sendo criada.
Eu e outros dois designers iniciamos essa prática, sem pesquisadores dedicados e sem um processo formal já estabelecido.
Com o crescimento da equipe, três desafios se tornaram prioritários:
- Escala: permitir que diferentes designers conduzissem pesquisas com consistência e autonomia.
- Recrutamento: reduzir o esforço para encontrar e agendar usuários, especialmente no Hand Talk Plugin.
- Acessibilidade: adaptar roteiros, formulários e a operação das sessões para pesquisas com pessoas surdas.
Também era necessário estruturar consentimento, armazenamento e retenção de dados de acordo com a LGPD.
Meu papel
Atuei tanto na estruturação quanto na execução da prática.
Mapeei o fluxo de pesquisa de ponta a ponta, identifiquei gargalos e organizei os materiais existentes.
Em conjunto com outras pessoas da equipe:
- criei os primeiros templates e checklists;
- estruturei padrões de recrutamento e agendamento;
- criei screeners e uma base de participantes;
- treinei designers para planejamento e execução de pesquisas;
- revisei roteiros e acompanhei estudos como referência sênior;
- organizei o repositório de Research.
O objetivo não era centralizar pesquisa em uma única pessoa, mas criar uma infraestrutura que permitisse aos designers pesquisar com autonomia e uma base comum de qualidade.
O sistema de ResearchOps
Estruturamos um fluxo reutilizável para acompanhar o ciclo completo de pesquisa:
Recrutamento
Consentimento
Execução
Análise
Armazenamento
Compartilhamento
Planejamento e execução
Criamos materiais reutilizáveis para evitar que cada estudo começasse do zero:
- briefing e template de planejamento;
- modelos de roteiro;
- screeners;
- checklists para avaliações heurísticas;
- materiais de apoio para testes de usabilidade e acessibilidade.
Pilotos eram recomendados e realizados na maior parte dos estudos.
Como profissional sênior, eu também apoiava decisões metodológicas, revisava roteiros e acompanhava pesquisas conduzidas por designers menos experientes.
Recrutamento
O recrutamento era especialmente difícil no Hand Talk Plugin, onde havia menos acesso direto aos usuários finais.
Para reduzir esse atrito:
- estruturamos uma base de participantes;
- padronizamos convites e agendamentos;
- criamos screeners reutilizáveis;
- organizamos o fluxo de contato com participantes;
- incorporamos a logística de intérpretes ao planejamento das pesquisas.
Com isso, recrutamento e agendamento passaram a ser mais rápidos e previsíveis.
ResearchOps para pesquisa inclusiva
Pesquisar com pessoas surdas exigia adaptar não apenas o método, mas também a operação da pesquisa.
Roteiros
As perguntas precisavam considerar a interpretação para Libras. Eu revisava roteiros e orientava designers para reduzir ambiguidades durante a mediação.
Formulários
Formulários direcionados a participantes surdos passaram a incluir vídeos em Libras além do conteúdo escrito.
Intérpretes
A disponibilidade e o agendamento de intérpretes passaram a fazer parte do fluxo de planejamento, evitando que essa necessidade fosse tratada apenas no momento da execução.
Essas práticas permitiram incorporar acessibilidade ao próprio ResearchOps, e não apenas ao produto pesquisado.
Governança e gestão do conhecimento
Com a implementação da LGPD, também estruturamos práticas para proteger os dados das pessoas participantes.
O termo de consentimento foi criado com apoio do Jurídico e registrado por documento assinado e confirmação verbal na gravação.
Os materiais sensíveis passaram a ser armazenados em um Google Drive separado, com acesso restrito à equipe de Design.
As gravações tinham prazo de retenção de dois anos e eram posteriormente excluídas.
Para preservar o conhecimento sem expor dados brutos, pesquisas e resultados eram organizados no repositório e os principais aprendizados também eram consolidados em um documento de insights.
Antes e depois
Antes
- pesquisas com usuários ainda não faziam parte da prática da área;
- não existia um fluxo estruturado de Research;
- materiais precisavam ser criados para cada novo estudo;
- não havia uma base organizada de participantes;
- recrutamento e agendamento tinham mais atrito;
- a operação de pesquisas com intérpretes não tinha um padrão estabelecido.
Depois
- até sete designers passaram a realizar atividades de pesquisa;
- templates, screeners e documentos passaram a ser reutilizados;
- planejamento e execução passaram a seguir um fluxo comum;
- recrutamento e agendamento se tornaram mais rápidos;
- a operação com intérpretes passou a ter um processo definido;
- consentimento, acesso, retenção e exclusão de dados ganharam regras claras;
- pesquisas e insights passaram a ser armazenados e recuperados de forma estruturada;
- designers ganharam maior autonomia para conduzir estudos.
Impacto
O principal resultado foi transformar pesquisa de uma atividade ainda inexistente na área em uma prática incorporada ao trabalho de Design.
A estrutura de ResearchOps permitiu que até sete designers participassem da realização de pesquisas utilizando uma base comum de processos, artefatos e práticas.
Também reduziu trabalho repetitivo, tornou recrutamento e agendamento mais previsíveis e criou mecanismos para preservar e reutilizar o conhecimento produzido.
Ao mesmo tempo, o processo incorporou dois aspectos importantes para o contexto da empresa: pesquisa inclusiva com pessoas surdas e governança de dados alinhada à LGPD.
Para mim, a principal mudança de perspectiva foi entender ResearchOps como infraestrutura: não apenas organizar pesquisas, mas criar condições para que outras pessoas consigam pesquisar com autonomia, qualidade e segurança.